Li, recentemente, uma notícia que me deixou mais pensativo do que o habitual.1 Os veículos de comunicação divulgaram dados do IBGE que apontam que, pela primeira vez na história brasileira, o número de união sem casamento ultrapassa o de matrimônios. Segundo as notícias, a chamada união consensual – como se o casamento correspondesse a um tipo não consensual de união – representou 38,9% enquanto os matrimônios formais, realizados nos âmbitos civil e religioso, representaram 37,9%. A diferença percentual é modesta, mas impressiona; principalmente porque as rodas do amor, desde os tempos mais remotos, giram de formas quase sempre convencionais e sistemáticas – independentemente da orientação sexual, trata-se quase sempre de conhecer alguém que se nos apresenta como especial, se apaixonar, idealizar uma vida feliz ao lado dessa pessoa, casar, ter filhos [ou não] e morar sob o mesmo teto até que o amor se transforme em ódio sangrento e sugue todas as energias dos “felizardos”. Mas sem separá-los, é claro, pois o ódio, longe de separar, também costuma servir de cola para juntar as pessoas e manter os relacionamentos vivos.
São muitas as reflexões sobre casamentos. Boa parte delas elogia a instituição matrimonial – como é o caso desta aqui (pelo menos é a intenção). A grande questão é o porquê de a notícia ter me deixado tão pensativo… Bem, fiquei pensando no esvaziamento das experiências humanas.
Eis o que me ocorreu na hora: as festas de casamento (e mesmo a assinatura do “contrato” nupcial no cartório) materializam uma dimensão simbólica do sentimento existente em relação à pessoa escolhida – estou me referindo aos casamentos consensuais; os não consensuais não se enquadram na minha descrição – e, nessa dimensão, a união encontra os ancoradouros da memória como portos seguros nos quais podem atracar. As fotos do casamento, o peso do “sim” pronunciado no altar, o beijo dos noivos, o olhar das testemunhas, o latim forçado do padre… Há uma série de lembretes do amor que existia no princípio, como lugares de memória e repouso das lembranças daquela ternura inicial que envolvia os apaixonados num clima de comunhão, antes de tudo se transformar em ódio violento.
Um historiador francês escreveu sobre a importância dos lugares de memória, referindo-se, claro, não ao matrimônio, mas aos monumentos nacionais. Aqui, todavia, usarei uma licença quase poética para realizar uma aplicação – possivelmente indevida – da sua teoria para transformá-la (quem sabe?!) em algo mais poético [ou mais patético]. Pierre Nora referiu-se a lugares de memória não apenas como espaços físicos, mas também como elementos simbólicos. As efemérides são importantes numa relação amorosa porque marcam as datas dos encontros e desencontros, do primeiro beijo, do casamento, do nascimento dos filhos, da lua de mel… Em outras palavras, as efemérides são símbolos do compromisso assumido diante de inúmeros olhares atentos e frequentemente gulosos do bolo festivo – mas que serviam de suporte material para um lembrete simbólico sempre presente. E o que dizer das alianças que os casados costumam usar? São também lugares de memória para fazer lembrar do “sim” dito naquele dia especial.
Os momentos solenes são marcantes. Mais do que vivências vazias e superficiais, produzem verdadeiras experiências inesquecíveis, que marcam profundamente o sujeito. Nada como uma solenidade, uma espécie de memorial das próprias escolhas amorosas para fazer recobrar o sentido encoberto pelo tempo. Afinal, uma vida não examinada merece ser vivida? A simplificação barata da vida pós-moderna parece demonstrar que não.
Por outro lado, são tantos os casamentos desfeitos que parece fazer sentido realizar um test drive antes da assinatura do contrato. Isso evita as decepções que geralmente vêm com a compra de um carro, principalmente se for usado. Ironicamente os sentimentos, afetos e emoções não suportam todos os tipos de avaliações daqueles que estão indecisos a respeito do compromisso matrimonial. Diferentemente das coisas [dos carros, por exemplo], pessoas têm sentimentos e geralmente as mágoas vão se acumulando ao logo do tempo, tornando difícil a manutenção de uma relação não comprometida. O amor não suporta descaso! E, convenhamos, na maioria esmagadora das vezes, morar junto sem contrair matrimônio acalenta o pretexto para se levantar e ir embora na primeira oportunidade, sempre que uma palavra mal-dita for pronunciada durante o jantar.
Que há um afastamento perceptível entre as pessoas, parece inegável. Uma frieza destas que cavam profundos esconderijos nos corações, congelados como o polo norte. Por mais romântico que eu seja, não posso negar que existem problemas e que muitos casamentos acabam mais cedo do que o desejado pelos pombinhos (de acordo com a religião, o esperado é a morte de um dos cônjuges; por isso a pesada expressão: “até que a morte vos separe”). Esperta, a religião deixa o trabalho pesado nos ombros da morte. Ela que faça a parte desagradável enquanto a religião promete um futuro paradisíaco. A Igreja Católica, por exemplo, não faz divórcio nem mesmo se existirem circunstâncias gravíssimas que demonstrem a total impossibilidade de continuação do vínculo. Mas, para não ser injusto, cabe aqui uma explicação para o posicionamento da Igreja. Não obstante se diga que o casal se torna uma só carne, o vínculo não é físico, mas espiritual. Portanto, trata-se de manter o vínculo espiritual com aquele [traste?] que você escolheu antes de conhecer todos os defeitos terríveis que ele escondeu durante o namoro. Isso porque o que Deus uniu, o homem não deve separar; e a coisa amarrada no céu será também amarrada na terra [e blá blá blá]. É isso. O casamento é uma amarração – concreta ou simbólica – levada a cabo por mãos não humanas (e há quem, se dizendo cristão, tenha preconceito contra as “amarrações” realizadas pelas religiões afrobrasileiras!).
Talvez eu esteja sendo muito romântico ao defender o casamento, embora saiba dos inúmeros casos de violência entre os casais, principalmente de homens movidos por ciúmes e sentimentos de posse. Muitos desses casos acabam, infelizmente, em assassinato de mulheres.
Não estou promovendo uma defesa religiosa do casamento. Até porque não me considero uma pessoa religiosa. É preciso reconhecer que muitos casamentos religiosos são resultado de uma tremenda “forçação de barra” que em algum momento acaba produzindo mais sofrimento do que a tão desejada felicidade. É neste tipo de casamento, por exemplo, que o ódio prospera e mantém o casal unido, embora se odiando. Não bastasse a modernidade ser líquida, a união consensual demonstra também a liquidez irrefletida do amor (para Bauman nenhum botar defeito).
Esta certamente não é uma discussão simples, tampouco fácil. Todavia, para continuar defendendo o casamento, talvez já tenhamos inventado uma nova forma de amar. Será necessário agora inventar uma nova maneira de produzir lugares de memória para ancorar a lápide na qual certamente estará escrito o famigerado epitáfio:
Aqui jaz o matrimônio (seja como instituição civil ou sacramento religioso).
Não vejo que diferença faz se todas as famílias felizes são iguais. As infelizes que se virem para encontrar maneiras autênticas de serem infelizes. Com ou sem casamento.
- Esta crônica conquistou o terceiro lugar na 10ª edição do Prêmio Castro Alves de Literatura, promovido pela Academia Teixeirense de Letras – ATL. ↩︎