Na cozinha, eu preparava o almoço das crianças enquanto ouvia as notícias no rádio. Frequentemente, entre uma notícia e outra, tocava uma música dos meus tempos de juventude. As músicas produziam um efeito maravilhoso no meu humor, que fazia com que a faca deslizasse suavemente nos legumes em preparação para o cozimento a vapor. A cada música, eu ensaiava uma dança e um assobio desajeitado, lembrando-me dos velhos tempos.
Quanto às notícias, eram quase todas banais. E isso, claro, era excelente.
De repente, silêncio. Silêncio absoluto. O rádio, a casa, a rua… Um silêncio mortal invadiu a existência de tal maneira que era praticamente impossível não ir até a janela do apartamento, no sétimo andar, em um dos prédios mais velhos e descorados do subúrbio, observar a rua.
Na rua, mais silêncio… e um inexplicável vazio.
Estranhamente, não havia sequer uma pessoa caminhando na calçada. Nenhum carro passando na rua, nenhum menino andando de bicicleta, nenhum cachorro cheirando o meio-fio. Era apenas um vazio colossal, silencioso. Sem carros estacionados nem gente conversando. Apenas o vazio de braços dados com o silêncio absoluto.
Da janela vi os cafés — sempre movimentados, repletos de estudantes — completamente vazios. As lojinhas de judeus e muçulmanos estavam igualmente quietas, despovoadas. Sem gritos nem promoções de última hora, tampouco o barulho desagradável dos elogios que os vendedores fazem às mulheres que passam, na esperança de que elas decidam comprar alguma coisa.
Atravessado pela estranheza daquela situação, girei apressadamente o botão do rádio — que apenas emitia um ruído branco e uniforme — para sintonizar outra estação que pudesse ainda estar funcionando. Foi simplesmente inútil.
O silêncio começou a produzir um zumbido agudo nos meus ouvidos, comparável à música que toca nos filmes de suspense antes que o vilão lance um ataque mortal. Vozes como de demônios perigosos começaram a explodir na minha mente, ordenando que eu descesse as escadas em busca de informações.
“E os meninos?”, pensei. “Se chegarem da escola e eu não estiver em casa, ficarão preocupados comigo.” Corri, rapidamente, até o escritório, peguei uma velha caneta azul — a primeira que encontrei — e escrevi, com mão trêmula, um bilhete. No bilhete, dizia: “aconteceu alguma coisa. Já volto, fiquem em casa”. Deixei o bilhete sobre a mesa do escritório, perto da máquina de escrever quebrada.
O conflito psíquico durou pouquíssimo tempo. Desci as escadas, lentamente. Observei as portas dos apartamentos: fechadas. E dentro dos apartamentos um silêncio hermético.
Nos corredores do prédio… completo silêncio. Somente o zumbido agudo e os meus passos se reproduziam na minha mente, como tambores surdos compassadamente tocados numa sala acústica projetada para gerar eco.
— Que estranho! — falei comigo mesmo, tentando me convencer de que alguém poderia me escutar.
A cada lance de escada descido, o silêncio se aprofundava numa escala que faria inveja aos astrofísicos que estudam a propagação do som no universo. Um novo vazio se propaga no prédio, afogando os meus ouvidos. Uma nova angústia silenciosa.
Pra dizer a verdade, eu estava começando a ficar completamente apavorado.
Não tinha ninguém na portaria do prédio; a portaria estava simplesmente abandonada. As portas estavam integralmente abertas para a rua, escancaradas, deixando entrar um vento terrivelmente gelado e angustiante.
A rua estava totalmente vazia e silenciosa. Fui — vagarosamente — até os três cafés mais próximos, um após outro, e todos estavam vazios. A joalheria do Yosef estava abandonada; as portas estavam abertas, mas não havia uma alma viva no lugar. Nem Yosef nem seu filho Yitzhak.
Atravessei a rua para verificar se havia alguém na loja do Mohammed. Ninguém. Curiosamente, o tapete de orações estava estendido no chão. E no balcão, o Alcorão Sagrado aberto na surata Al-Fátiha demonstra que Mohammed estava se preparando para a oração do meio-dia.
Mohammed e Yosef eram pessoas muito boas e pacíficas. Honestas e tementes a Deus, seguiam as tradições prescritas pelas suas religiões. Foram as primeiras pessoas com quem tive contato ao chegar na localidade.
Lembrei-me de quando me mudei para o bairro, após o falecimento da minha esposa Monika em um acidente de carro. As discussões acaloradas entre Mohammed e Yosef por causa das diferenças culturais eram muito engraçadas. Enquanto um gritava em árabe, o outro respondia em hebraico; e ninguém entendia o que estavam dizendo. No fim, eles se resolviam, como boas pessoas que eram.
Confesso que foi nesse momento que me bateu um enorme desespero.
Então comecei a gritar o mais alto que podia:
— Ei, tem alguém aí?! Mohammed! Yosef! Onde vocês estão?
E a resposta era a mesma: um silêncio sepulcral.
— Por favor, responda! Tem alguém aí?
Quanto mais alto os meus gritos ecoavam, maior era a amplificação do zumbido nos meus ouvidos. E as vozes na minha cabeça repetiam: “o que você vai fazer agora que todo mundo desapareceu?”.
Por um momento, cogitei a possibilidade de ter acontecido o arrebatamento prometido na Bíblia, mas cheguei à conclusão de que eu não seria a única pessoa a ser deixada para trás pelo Salvador. Tudo bem que eu não tenha sido exatamente o que se pode chamar de cristão exemplar nos últimos anos, mas imagino que também não tenha sido o pior. Então, não, devia haver outra explicação para o silêncio.
De repente, fui tomado por uma angústia tão pontiaguda que atravessou o meu corpo como uma espada medieval perfurando os meus intestinos: Hércules e Sofia não voltaram da escola. Preciso encontrá-los, pois são as pessoas mais importantes da minha vida. O meu coração começou a bater de forma espantosamente acelerada com a possibilidade de ter perdido os meus filhos. Seus rostos apareciam em flashes na minha memória, tristes e aterrorizados, como que me responsabilizando pelo silêncio.
— Será que todo mundo morreu? — sussurrei para mim mesmo.
— Não é possível. E onde estão os corpos? — respondi à pergunta, como num monólogo shakespeariano sinistro.
Na medida em que o desespero ia se ampliando no meu peito, comecei a correr e entrar em todas as portas abertas. Aliás, uma quantidade surpreendente de portas estava aberta; portas escancaradas para a rua, como se todos tivessem saído às pressas. E no interior dos imóveis, o mesmo vazio angustiante e o mesmo silêncio delirante.
Uma Igreja Católica, na esquina, apresentava sua gigantesca porta de madeira totalmente escancarada. Entrei, procurando vestígios de gente. Era inútil procurar por alguma alma viva. No altar, as velas continuavam acesas, crepitando com o contato da chama na parafina. O Cristo crucificado estava triste, mórbido, de olhos abaixados como que envergonhado de sua casa estar tão desabitada. Todos os santos, com os olhos abertos e as mãos em concha, pareciam pedir alguma coisa; mas eu não conseguia discernir o que desejavam.
Saí correndo da igreja em direção à escola. Precisava encontrar Hércules e Sofia e levá-los em segurança para casa. Os sapatos começaram a apertar os meus pés, por isso os arranquei apressadamente enquanto corria.
Tive a impressão de ter visto alguém atravessando a rua, uma mulher, em outra direção. Longe, mas sim, uma mulher num vestido branco. Corri imediatamente em sua direção, e gritei:
— Por favor, me espere! Preciso perguntar uma coisa!
A figura de branco aparentemente parou sob o alpendre de um prédio, junto ao portão que dá acesso ao pavimento superior. Quando me aproximei, não havia nada além de um sudário branco flamulando ao vento. Não passou de uma ilusão desesperada motivada pelo desejo incólume de não estar sozinho no mundo.
- Conto publicado originalmente no livro Vidas Trágicas (Opera Editorial, 2025).
