O banzo me invade o peito
feito um sujeito
que não sabe direito
o que é viver
a despeito desse jeito
imperfeito de não saber
é choro cristalizado
de um pobre escravizado
envenenado pela tristeza
suspeito, com certeza
do crime – desgraçado – de morrer
esse grande pecado
imperdoável, miserável
efeito do tumbeiro
dia inteiro acordado
prevê o roteiro
o destino lambeiro
do senhor de escravos.
Divisado pelo Atlântico
canta seus cânticos
em busca do que é sagrado
ofusca-se o meio semântico
que torna o divino satânico
às mãos desses gigânticos poderes
perpetrados.
O banzo me invade o peito
arma um desfecho de sorte
é morte cruel, ilhéu depressão
caído no chão, cadê os deuses?
o incréu choro na alma
acalma a mente não-forte
doente de morte
do bote da tristeza
é muito atlântico separando
o apofântico destino
chegado menino, filhote
velhote agora, angustiado chora
a perda da liberdade
não é saudade [portuguesa]
é banzo que invade o peito
e deixa desse jeito venal
o sujeito insatisfeito
cheio de despeito
com o desenredo final.
- Este poema conquistou a 2ª colocação na versão interna do Prêmio Castro Alves de Literatura 2025, promovido pela Academia Teixeirense de Letras (ATL).