Retiraram Moisés do calabouço fétido da fazenda e trouxeram-no à presença do senhorzinho. O rosto de Moisés expressava um terror indescritível ao mirar o olhar severo daquele jovem homem branco, pequeno e magro à sua frente. Seu rosto pálido sob os raios solares do meio-dia parecia a face de um anjo cruel.
— Bom dia, flor do dia! — disse o senhorzinho sarcasticamente — Você dormiu bem?
As faces negras de Moisés ficaram pálidas de terror diante do chicote afiado na mão direita do homem.
— Senhor, por favor não faça isso. — Moisés implorou, ajoelhando-se no chão ressequido. Imaginava que o senhorzinho o açoitaria no tronco.
— Agora você acha que pode me dizer o que fazer, escravo?! Parece que estou dando muita liberdade para vocês.
O senhorzinho parou de falar e olhou em volta. No campo e na senzala velha, vários escravos olhavam timidamente para a cena.
Moisés estava morrendo de fome. Ficara três dias trancado no porão, sem comer absolutamente nada. As únicas coisas que havia ingerido eram dois pedaços de mandioca crua e água, que algum companheiro de cativeiro tinha levado para ele.
— Está vendo este tronco, negro? Hoje você não irá usá-lo. Pensei em algo mais… pedagógico. — falou após uma curta pausa.
Moisés estava com o olhar perdido nas paisagens distantes.
— Macário, amarre ele numa tábua e deixe-o deitado no chão!
Macário não estava entendendo a ordem, por isso olhava com espanto para o senhorzinho.
— Não entendeu, Macário?! Você é burro, homem? — disse o senhorzinho, raivosamente.
— Eu disse para você pegar uma tábua, colocar nas costas dele e enrolar uma corda no corpo dele, juntando-o com a tábua. Após isso, deixe-o no chão, de maneira que não possa se mexer.
— Sim, senhor! Agora entendi. — Desviou o olhar para um negrinho que estava perto:
— Vamos, Saul! Traga logo uma tábua!
Saul, que também era escravo na fazenda, saiu correndo para cumprir a ordem do feitor. Retornou alguns minutos depois com uma tábua forte, provavelmente de pequizeiro.
Moisés não impôs resistência ao ser amarrado à tábua, como se fosse uma espécie de tala para a sua coluna vertebral. Não que não desejasse resistir, mas porque não estava entendendo o objetivo de toda aquela manobra. E também estava muito fraco para espernear.
— Agora, Saul, abra bem a boca dele! — disse o senhorzinho.
Saul olhou assustado para o senhorzinho.
— Vamos, rapaz! — gritou Macário. — Faça o que o senhorzinho está mandando! Ou você prefere ir para o porão?
Saul abriu bem firme a boca de Moisés, que gritava e tentava morder a mão de Saul. Mesmo sem entender o que estava acontecendo, Moisés imaginava que não seria coisa boa.— Macário, cague na boca desse negro safado!
— Como é, senhor? — perguntou Macário, aturdido.
— É o que você ouviu, homem. Cague na boca desse negro insolente. Agora!
— Mas, senhor…
— Mas o quê, miserável? Se não cumprir a minha ordem, é você quem vai parar no tronco. E vou colocar esse negrinho para chicotear você. — falou apontando para Saul, que ainda segurava a mandíbula de Moisés.
Depois que Macário defecou na boca de Moisés, o senhorzinho o fez amordaçar o pobre escravo e deixá-lo no sol, deitado, com a boca cheia de fezes.
O senhorzinho se aproximou bem do rosto de Moisés e disse com voz suave:
— Você vai ficar aqui durante duas horas com essa merda na boca pra você aprender que Vênus é minha. Você não está autorizado a trepar com ela.
Ajeitou a mordaça na boca de Moisés. E continuou:
— Só eu posso comer aquela puta. Entendeu?
Moisés estava imóvel. No seu olhar não havia mais terror, mas ódio. Um ódio assassino de quem não possui mais razões para viver. Um ódio assassino de quem estava disposto a morrer desde que o inimigo também morresse. Moisés queria muito machucar aquele homenzinho esbelto e pálido, fazê-lo implorar pela própria vida, gritando de dor. Queria ouvir o barulho suave da sua pele branca sendo arrancada com uma faca bem afiada.
— Entendeu, negro?! — gritou o senhorzinho.
E virando-se para o feitor, o senhorzinho disse:
— Ah, isso tudo me deu um tesão danado. Macário — chamou o feitor — mande Vênus para o meu quarto, pois eu preciso aliviar um pouco essa tensão.
E saiu andando com a suavidade de um anjo de Deus em direção à casa-grande.
- Este conto conquistou o 1º lugar na versão interna do Prêmio Castro Alves de Literatura 2025, realizado pela Academia Teixeirense de Letras (ATL).