Tripé: a formaçao do psicanalista

A formação do psicanalista constitui-se temática cuja discussão é imprescindível, uma vez que se reveste de relevância essencial para a consecução daquilo que podemos denominar inequivocamente de psicanálise. Nesta perspectiva, podemos falar em formação do psicanalista no sentido de o sujeito “fazer-se” psicanalista segundo os ditames do seu próprio desejo, comprometendo-se com o discurso analítico, fundamentado especificamente na noção de inconsciente. O psicanalista, antes de mais nada, está comprometido com o inconsciente.

Por outro lado, a formação psicanalítica ocorre de maneira diversa daquela com a qual estamos habituados, posto que, diferentemente das formações acadêmicas que ensejam uma estruturação técnica e profissional, a psicanálise reconhece-se como uma práxis, isto é, nessa práxis, “a psicanálise em intensão (a experiência da análise) deveria se unir à extensão (a transmissão do saber textual) segundo o princípio transferencial”. Desta forma, podemos afirmar que as implicações da formação do psicanalista ultrapassa incomensuravelmente as implicações, quais sejam elas, da formação de qualquer outro corpo teórico. Obviamente, não é escopo deste texto fazer surgir um fosso intransponível entre a psicanálise e as demais abordagens técnico-científicas ou teóricas, mas é, antes, delimitar quaisquer mal-entendidos que a linguagem possa produzir acerca da definição do que chamamos de formação.

Assim, o escopo deste artigo é explicitar as peculiaridades implicadas na formação do psicanalista, expondo conceitualmente os aspectos necessários para que haja uma formação realmente psicanalítica. Para tanto, defendemos que o estatuto da psicanálise é ético, não ôntico. Sendo assim, podemos afirmar que a formação do psicanalista implica no reconhecimento tácito da constituição ética da psicanálise, não somente no percurso da formação. Christian Dunker, psicanalista dos Fóruns do Campo Lacaniano, afirma que o psicanalista não se faz na poltrona, mas no divã, à medida que demonstra comprometimento com seu próprio desejo na posição de analisando/paciente.

Lacan afirmou, polemicamente, que “o psicanalista não se autoriza senão de si mesmo”. Essa afirmação de Jacques Lacan tornou-se polêmica em decorrência da interpretação ambígua a que a frase conduz o ouvinte. Todavia, em se tratando de Lacan, para quem “você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou”, o equívoco parece inevitável. Mesmo assim, faremos bem em examinar cuidadosamente as colocações de Lacan em busca de um saber que se encontra escamoteado nas entrelinhas do inconsciente. Portanto, Christian Dunker esclarece que o “autorizar-se de si mesmo” expresso por Lacan sugere genericamente que “tornar-se psicanalista é um ato ético do sujeito, um ato que se realiza no interior da análise e que procura restabelecer a ideia mesma de formação em toda a sua radicalidade.” Logo, um ato que é “próprio do sujeito em formação, sozinho portanto, mas não solitário, no sentido em que tal ato deve ser reconhecido por alguém”. Sim. O psicanalista não se autoriza senão de si mesmo. Contudo, o ato de autorizar-se deve encontrar ressonância no reconhecimento de alguém.

O psicanalista não se autoriza senão de si mesmo, defendia Lacan. Obviamente, esse autorizar-se de si mesmo não significa de maneira alguma que tornar-se psicanalista implique necessariamente numa “autoproclamação”. Pelo contrário, tornar-se psicanalista, segundo a conceituação lacaniana, implica obrigatoriamente na relação do sujeito com seu percurso analítico e tudo aquilo que, implícita ou explicitamente, encontra-se relacionado com esse percurso. Desta forma, tornar-se psicanalista é resultado de uma responsabilização do sujeito frente o próprio desejo e a aceitação da comunidade analítica na qual encontra-se inserido e partícipe.

Nesta perspectiva, o percurso formativo é imprescindível para a formação do psicanalista. No interior da teoria psicanalítica, no tocante à formação de psicanalistas, não podemos dizer que Lacan perverteu a metodologia utilizada pela Associação Internacional de Psicanálise – IPA, fundada por Freud. Lacan promoveu, dentro dos limites da teorização, a conceituação da formação do psicanalista dentro das bases epistemológicas. Formação do psicanalista adquiriu status de conceito, diferentemente de como era antes, uma exigência metodológica.

Assim, a formação do analista continua fundamentada no tripé freudiano, a saber, seminários teóricos, análise pessoal e supervisão clínica. Todavia, a reforma no entendimento de formação, embora não tenha impactado estruturalmente a metodologia utilizada até então, realizou uma tarefa importantíssima: trouxe à tona o discurso ético. O estatuto da psicanálise não é ôntico, mas ético. Isso significa que tornar-se psicanalista é, antes de qualquer coisa, uma decisão ética. É reconhecer que a psicanálise só poderá ser útil a outrem se antes tiver sido útil ao próprio analista. Por isso o psicanalista não se faz na poltrona, mas no divã. É no divã que o sujeito reconcilia-se com a própria história, refaz seu percurso de vida, elabora seus conflitos psíquicos, reconhece-se como sujeito de desejo, simboliza o discurso significante que encadeia sua posição de sujeito.

O psicanalista não se autoriza senão de si mesmo. Autoriza-se de si mesmo em comunhão (palavra sugestiva) com o saber constituído legitimamente na escola ou instituição psicanalítica na qual o sujeito realiza sua formação. O psicanalista em formação aposta na constituição ética do saber psicanalítico frente o absurdo do Real.

No campo metodológico da formação psicanalítica, podemos destacar o tripé freudiano, alicerçado nas orientações deixadas por Freud. Seminários ou estudos teóricos constituem a parte da formação estruturada sobre o conhecimento das diversas correntes teóricas da psicanálise. Aliado aos estudos teóricos, o aspirante a psicanalista precisa “entrar em análise”, ou seja, tornar-se ele mesmo paciente de um psicanalista (nas sociedades da IPA existe a figura do analista didata). Parece consenso entre psicanalistas das diversas escolas e formações que essa é a principal etapa da formação. Outro fator importante é que o tempo de análise pessoal varia de uma instituição para outra (normalmente as análises de orientação lacaniana – embora com sessões de tempo variável – podem durar anos). Contudo, algumas instituições têm oferecido formações com uma exigência mínima de apenas dez sessões de análise pessoal (um verdadeiro absurdo!). A terceira etapa da formação psicanalítica é a supervisão clínica. Nesta etapa, o aspirante deve atender pacientes/analisandos sob a supervisão de um psicanalista experiente.