Conto: Instinto Materno




Era um belíssimo dia de verão, uma dessas quintas-feiras repletas de raios brilhantes invadindo o quarto de Mateus pelas frestas mal ajustadas da cortina. O vidro da janela tornava os raios solares ainda mais quentes, produzindo um efeito caleidoscópico impressionante na parede, sobre a cama do rapaz. Ele, suavemente, ainda dormia, despreocupado com as atividades cotidianas.

A mãe, professora primária, já havia despertado e tomava café na cozinha. Lembrava-se de ter se deitado tarde, preocupada com a situação do filho. Dezenove anos e sem nenhum interesse na vida social. Não frequenta a igreja, não pratica esportes, não tem amigos… Desde que terminou o ensino médio, Mateus não sai de casa. Fica o tempo inteiro no computador, jogando videogame e vendo pornografia [ele pensa que a mãe não percebe o seu vício em pornografia]. Soraya termina seu café, caminha apressadamente até a escada sem subir sequer um degrau:

— Filho, já estou saindo. Não se esqueça de escovar os dentes e tomar café!

— Mãe, me deixa dormir. Caralho! — respondeu o filho.

Soraya saiu para mais um dia de trabalho. Não suportava mais ter que ir para a escola, deseja se aposentar o mais depressa possível. Mas ainda era jovem demais para isso. Divorciada aos quarenta e cinco anos, não tinha mais pique para conhecer homens. Além disso, sentia-se muito velha para se oferecer como carne na vitrine de um açougue. Restava-lhe somente a resignação com um trabalho que odiava, um filho que não se importava com ela e uma estante de romances não lidos na sala.

Soraya sentia-se deprimida. Na escola, não conseguia se concentrar no conteúdo das aulas. Tudo a irritava: o nariz das crianças escorrendo, as mães que mentiam sobre as ausências constantes dos filhos, pais bêbados nas reuniões de pais e mestres. Ficou ainda mais irritada quando abriu a bolsa e descobriu que sua carteira não estava ali. Soube na hora que Mateus tinha roubado os trocados e o cartão de crédito. “Filho da puta!”, pensou em silêncio, constrangendo-se com a palavra “puta” que brotara na sua mente.

No fundo, Soraya queria ser puta. Esse pensamento invadia as fantasias dela, desde que o marido fugiu com a sua melhor amiga. “As putas têm tudo o que desejam”, pensou, enrubescendo. “As mulheres decentes não têm nada. Perdem até os maridos para as putas”. Na cabeça de Soraya, ser puta é não ter responsabilidades. É viver de forma descomprometida com a moral; é não se prender às normas sexuais que a acompanham desde menina. Fora ensinada a não ser uma puta e acabou carregando o peso do mundo nas costas. Sentia-se a versão feminina de Sísifo, carregando pesadas pedras montanha acima. Sem nenhum reconhecimento. “Fosse puta, não trabalharia tanto. E com certeza transaria mais, muito mais”. Balançou a cabeça como que tentando espantar aquele pensamento imoral. Soraya era uma mulher decente, da igreja, fervorosa e guerreira. Tinha uma reputação a zelar. Uma imagem respeitável. Ainda que essa reputação só existisse na sua fantasia, como apelo ilusório de um narcisismo de sobrevivência.

— Tia… tia… tia… — Soraya acordou de seu devaneio com o chamado do pequeno Yuri, que apresentava uma tarefa escolar no caderno. — É assim que faz?

— Deixe-me ver, meu amor. Ah… é isso mesmo. Agora retorne para a sua carteira e finalize essa atividade.

Soraya parecia afável, mas não estava nada bem. Seus olhos ardiam, seu corpo doía como se ela fosse uma lagarta presa num casulo pequeno demais. Queria mesmo era sair gritando pela rua, insultando as pessoas e jogando pedras em aviões. Mas não podia fazer nada disso… Estava presa à imagem de mulher decente que construiu. Era uma prisioneira do seu próprio código moral. Todos os desejos e fantasias ficaram apenas no plano do devaneio. Não tinha mais sonhos, nem esperança. Só covardia. Sexo? Há muito tempo não sabia o que era isso. “Uma mulher às vezes precisa de um pouco de prazer”, pensou quase em voz alta. Olhou ao redor, as crianças estavam silenciosamente sentadas em suas carteiras. Percebeu que seu devaneio era apenas seu; no íntimo poderia ser a puta que sempre sonhou ser.

Mais tarde naquele dia, Soraya entrou em casa com algumas sacolas de compras. Eram, em geral, itens da padaria, que trazia para o café da manhã do dia seguinte. Girou a chave na fechadura, a porta se abriu silenciosamente. Na sala teve uma surpresa desagradável: Mateus estava se masturbando no sofá enquanto via um filme erótico na televisão. Ao vê-la, não esboçou nenhuma reação, apenas continuou o que estava fazendo. Soraya caminhou apressadamente até a televisão, desligando-a.

Mateus mostrou-se sarcástico:

— A dona Soraya está cheia de pudores… Será que ela sempre foi assim? — falou olhando para a própria genitália.

— Você está drogado, Mateus? Você está doente, garoto. Eu chego em casa e você nessas condições… Eu não suporto mais trabalhar o dia inteiro e ver você enfurnado nessa casa jogando e se masturbando!

Mateus continuou acariciando a genitália, como que se exibindo para a mãe. Soraya sentiu-se imensamente desrespeitada, mas percebeu que o filho estava completamente drogado. Estava mais estranho do que costumeiramente. Então subiu para o quarto para não testemunhar aquela cena terrível.

Deitada na cama, sua cabeça estava um turbilhão. Soraya não sabia o que fazer com o filho antissocial, o dia inteiro jogando videogame, vendo pornografia e se drogando. As lágrimas escorriam silenciosamente na pele pálida do seu rosto bonito. Seu cabelo negro estava muito despenteado. Seu rosto de uma beleza rústica e atraente parecia cansado dos terrores da vida. Questionava-se por que Deus permitiu que tivesse uma vida tão miserável.

— Mãe, preciso de dinheiro — disse Mateus, entrando abruptamente no quarto.

— Não tenho dinheiro, Mateus. Eu sei que você pegou o dinheiro na minha bolsa. Onde está o meu cartão de crédito?

Soraya sentia-se uma refém na sua própria casa. A situação estava ficando cada vez pior. Mateus estava crescido. Ela não podia mais dar jeito nele, mas algo dentro dela dizia que esse era o seu dever moral: suportar as crises do filho, buscando maneiras de salvá-lo. Desde que o pai foi embora, o pobrezinho tinha mudado muito. “Coitadinho”, pensava Soraya, num misto de medo e carinho.

Os olhos de Mateus carregavam uma luz diferente, opaca, sem brilho. Havia um grande desespero nos seus olhos. E a fala? Estava diferente, mais agressiva. Imensamente cruel.

O garoto, antes tão meigo e amável, transformou-se num monstro. Não era mais o menino da mamãe. Era uma outra coisa, um animal, uma fera. Um maldito bicho.

Subitamente, Mateus saltou sobre Soraya, na cama, enforcando-a com as mãos:

— Eu preciso do dinheiro, mãe. Preciso do dinheiro… — repetia, chorando, a mesma frase. E a cada vez que repetia, apertava ainda mais forte a garganta da pobre mulher. Soraya não teve a menor chance. Morreu naquele momento, com a mesma roupa do trabalho. A circunstância de sua chegada em casa tirara-lhe o prazer de um banho quente e de uma roupa limpa. Não colocou a camisola, tampouco pegou Anna Karenina para ler algumas páginas. Fizera uma promessa a si mesma: finalizaria o livro até o fim do ano, nem que tivesse que ler apenas duas páginas por dia. Nesta noite, sequer conseguiu retirar o livro da cabeceira da cama.

Enquanto o seu cérebro se apagava, Soraya pensou na sua infância miserável em Maceió. Havia se deparado com o abominável destino de Macabéa. Passou um flash pela sua memória, numa intercorrência de imagens confusas e velozes. Lembrou-se de como chegou a BH, vindo trabalhar na casa de uma família rica. Pensou nos abusos sofridos naquela casa, quando era ainda muito jovem. E lembrou-se do momento de grande felicidade que teve ao conhecer Ernesto, o pai de Mateus.

Ernesto era um homem sedutor. Tinha aquele sotaque mineiro do interior e um grande coração. Apaixonou-se por ele assim que ouviu a sua voz. É como se a voz de Ernesto já existisse no inconsciente de Soraya. O problema é que o coração de Ernesto era muito grande, cabia inclusive outras mulheres… Mas como ele era sedutor, carinhoso e discreto, Soraya foi se deixando enredar pelos cuidados que Ernesto proporcionava. Além de tudo, era um poeta romântico. Escrevia uns sonetos dignos de Vinicius de Moraes e Pablo Neruda, que deixavam Soraya completamente derretida. Carente de amor, a pobre mulher deixou-se levar pelos encantos poéticos e pelos surtos de raiva quase frequentes daquele homem carinhoso e violento. Até que um dia, os poemas dele se direcionaram para uma certa Verônica; e nunca mais voltaram a pertencer a Soraya.

Soraya estava irremediavelmente morta em cima da própria cama. As mãos de Mateus, ainda esmagando o osso hioide da mãe, repentinamente perceberam que a mulher não respirava mais. Todo o efeito alucinógeno do que quer que o garoto tenha usado passou, deixando-o em completo desespero. Ele simplesmente não sabia o que fazer. Pegou o telefone para chamar a polícia, mas não podia fazer aquilo, já que o pescoço de Soraya estava completamente roxo, quase destruído.

Foi quando teve a ideia de colocar o cadáver no Renault Sandero prateado da mãe. Foi até a garagem, lá estava o carro. Mórbido, estático, como são os carros usados em crimes. Desceu o corpo pelas escadas, com alguma dificuldade, mas evitando barulho. Colocou o corpo no porta-malas, sentiu um forte estalo enquanto empurrava o cadáver para dentro do carro, como se os ossos da defunta estivessem se partindo.

Dirigiu o mais longe que pôde. Encontrou um viaduto onde surpreendentemente não abrigava nenhum morador de rua. Ali deixou o cadáver. Mas antes, rasgou suas roupas, deixando os seios à mostra. Ficou alguns minutos observando, hipnotizado, os seios bem torneados da mãe morta. “Como podia aquela mulher moralista, recatada e papa-hóstia ter seios tão bonitos?!”, pensou ironicamente. Chegou a tocá-los com as palmas das mãos para verificar se eram mesmo reais. Eram.

Entrou no carro e saiu cantando pneus dentro da noite estrelada.

Este conto integra o livro “Vidas Trágicas”. Garanta seu exemplar na página Livros.