Escrevo estas linhas a pedido do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise sobre os Complexos Familiares (IPB-EBP/BA),[1] cujo intuito é compreender [mais na qualidade de um não-saber de travessia contínua metamorfoseado do que na qualidade de um saber estruturado, estabelecido, pronto e acabado, herdeiro de um discurso cientificista] o lugar das dinâmicas familiares no âmbito da vida psíquica inconsciente dos sujeitos.
Primeiramente, o Núcleo me colocou para trabalhar no sentido de encontrar uma definição viável, que obviamente decorre de uma historiografia etimológica. Roudinesco e Plon (1998, p. 46)[2] identificam o autoerotismo [do inglês auto-erotism] como um termo proposto originalmente pelo médico inglês e fundador da sexologia, Henry Havelock Ellis (1859-1939).[3]
O termo autoerotismo foi retomado posteriormente por Sigmund Freud para designar um comportamento sexual de tipo infantil no qual o sujeito deriva prazer exclusivamente do próprio corpo, sem recorrer a objetos externos (Roudinesco; Plon, 1998).[4] Nos seus Três ensaios[5] ([1905] 1996, p. 170), Freud vincula a sexualidade infantil à existência da pulsão, ampliando o entendimento acerca do termo, na medida que reconhece que, no autoerotismo, “a pulsão não está dirigida para outra pessoa” como objeto de prazer, mas satisfaz-se antes no próprio corpo. A via pulsional, introduzida por Freud, tornou o campo psicanalítico ainda mais interessante, na medida em que a pulsão relaciona-se intimamente com a repetição, isto é, o impulso repetitivo do sujeito em busca de satisfação pulsional.[6]
Não obstante a sexologia partisse da biologização do sujeito, sobretudo na esteira da teoria da evolução das espécies, que reconheceu o homem como um animal pertencente à classe dos mamíferos e que, portanto, tenderia a ser movido pelo instinto, Freud dispensou este vocábulo para introduzir outra palavra descritora do impulso nos seres humanos. Esta palavra, traduzida da versão inglesa para o português como instinto, é trieb. Mais recentemente, trieb tem sido compreendida como pulsão – não instinto –, embora o Dicionário do Alemão de Freud indique que tomar trieb como instinto não seria, do ponto de vista semântico, necessariamente um equívoco. Todavia, lidamos na psicanálise, primariamente com o valor semântico do conceito psicanalítico indicativo do que o pai da psicanálise realmente quis dizer.[7]
Nesta perspectiva, Luiz Alfredo Garcia-Roza didatiza:
As teorias sobre a sexualidade vigentes à época de Freud tinham por referência básica a noção de instinto, entendido como um padrão fixo de comportamento, herdado, cujo objetivo era a reprodução da espécie. Essa noção vai ser substituída em Freud pelo conceito de pulsão (Trieb). Os Três ensaios tematizam não o instinto sexual mas a pulsão sexual, e se podemos apontar “desvios” ou “perversões” do instinto, por se tratar de uma conduta cujos padrões são fixados hereditariamente, isso se torna extremamente difícil, senão impossível, em se tratando da pulsão, errante por natureza (Garcia-Roza, 2008, p. 30).[8]
Garcia-Roza afirma ainda, em outro lugar, que a pulsão se apoia no instinto (Anlehnung – termo utilizado por Freud). Mas não o faz para confundir-se com o instinto, mas para se desviar dele (Garcia-Roza, 1986, p. 15-16).[9] Contudo, pensemos a partir da proposta dos estádios de desenvolvimento psicossexual, no decorrer do qual espera-se que o sujeito passe do autoerotismo para o aloerotismo: o recém-nascido, apresentando o que Freud chamou de “pulsão de nutrição” (Freud, [1905] 1996, p. 128, 172), não estaria no campo do instinto [no lugar do campo da pulsão? Na página 128 dos Três ensaios, Freud identifica a pulsão de nutrição com a fome]. Neste sentido, a pulsão apoia-se no instinto.
Os estádios do desenvolvimento psicossexual revestem-se de relevância imprescindível nos Três ensaios na medida em que os movimentos pulsionais contribuem categoricamente para a sexualidade, moldando-a segundo seus padrões. Todavia, faz-se necessário pontuar que a sexualidade aparece no texto não como uma organização genital madura, mas como uma matriz de satisfação pulsional [diferente da genitalidade, cuja entrada ocorrerá na puberdade]. Na organização sexual oral, pré-genital, o prazer concentra-se na cavidade oral (boca, lábios, etc.), a criança experimenta satisfação enquanto se alimenta no seio materno.[10] Além do seio materno, a criança leva objetos à boca como forma de satisfação, chegando a mordê-los quando já tem dentes.[11] Ainda neste estádio, o desmame corresponde a um dos primeiros conflitos e frustrações vividos pela criança que a situará em relação à realidade do mundo (é neste estádio que o eu/ego se forma).[12]
Na medida em que as instâncias do psiquismo vão se formando, as pulsões se reacomodam; como inexiste um objeto que seja adequado à pulsão, essa reacomodação encontra amparo na satisfação pulsional sem um destino pré-determinado [diferente dos mamíferos inferiores que são movidos pelo instinto, sabendo exatamente o que devem fazer, nós, os falasseres, não sabemos exatamente como devemos agir – estamos desbussolados, como diria o psicanalista Jorge Forbes]. Nisso o falasser [parlêtre] diferencia-se dos demais mamíferos, uma vez que a pulsão busca a satisfação sem depender de um objeto fixo, pronto, acabado, irredutível. A pulsão é satisfeita na incompletudo, sempre parcialmente.
Nessa perspectiva, interessa-nos perceber que Freud atribui importância fundamental ao chuchar como elemento integrante do autoerotismo na medida em que pressupõe efeitos na vida adulta, como modo de reacomodação – ou continuidade, se preferir – da operação pulsional. Escreve, ipsis litteris: “Persistindo essa significação, tais crianças, uma vez adultas, serão ávidas apreciadoras do beijo, tenderão a beijos perversos ou, se forem homens, terão um poderos motivo para beber e fumar” (Freud, [1905] 1996, p. 171-172).[13] No entanto, faz-se necessária uma problematização da expressão freudiana, na medida em que a vida adulta acarreta uma sexualidade genital [exceto talvez para o perverso, mas esta é outra discussão]. Pois bem, pensando a questão do beijo, da bebida ou do tabaco, torna-se imprescindível problematizarmos em que ponto consistem em satisfação autoerótica ou aloerótica. Por exemplo, a partir da puberdade a masturbaçao é uma ação solitária, mas que no registro imaginário, da fantasia, remete a um objeto externo, portanto, aloerótico. Em outras palavras, a execução de movimentos pulsionais solitários, isto é, nos quais outro corpo [físico] não está envolvido, não significa, absolutamente, tratar-se de uma satisfação autoerótica, visto que outro sujeito [na qualidade de objeto externo de desejo] encontra-se inserido. Nestes casos, a pulsão apenas está encontrando satisfação num objeto ‘susbtitutivo’.[14]
Para finalizar… outros conceitos poderão se mostrar de importância absoluta para a compreensão do autoerotismo na psicanálise, sobretudo o narcisismo primário. Adicionalmente, penso que uma discussão sobre os três tempos do Édipo, em Lacan, também será imprescindível. No entanto, não aprofundarei nesta reflexão porque foge do escopo deste momento de discussão no Núcleo de Pesquisa em Psicanálise Complexos Familiares.
[1] Instituto de Psicanálise da Bahia, vinculado à Escola Brasileira de Psicanálise.
[2] ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
[3] A sexologia teria sido fundada por Havelock Ellis, Alfred Moll e Richard von Krafft-Ebing (Roudinesco; Plon, 1998, p. 176).
[4] Eugen Bleuler cunhou o termo “autismo”, em 1907, porque se recusava a empregar a palavra “autoerotismo”, por considerar seu sentido altamente sexual. Contudo, Bleuler não aplicava o sentido que a palavra autismo passou a ter após a descoberta de Leo Kanner, mas empregava o termo para designa um distúrbio típico da esquizofrenia (Roudinesco; Plon, 1998, p. 43). Assim, embora o termo autismo seja uma condensação de autoerotismo, atualmente remetem a significados diferentes.
[5] FREUD, S. [1905]. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
[6] Mais tarde, Jacques Lacan identificou a pulsão como um conceito fundamental da psicanálise (Lacan, [1964] 1988). Lacan introduziu adicionalmente duas modalidades de repetição: tiquê e autômaton. A primeira ancorada no campo do real e a segunda, do simbólico; mas ambas as modalidades estão intimamente relacionadas à realidade pulsional (LACAN, Jacques. [1964]. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988).
[7] Freud usou a palavra instinkt poucas vezes. O fato de ter adotado a palavra trieb indica que não estava satisfeito com a palavra instinkt, que, segundo os usos que fez, acreditava aplicar-se à classe dos mamíferos não falantes, e não aos seres humanos (parlêtre, como Lacan brincou).
[8] GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Introdução à Metapsicologia Freudiana 3: artigos de metapsicologia, 1914-1917 – narcisismo, pulsão, recalque, inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.
[9] GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Acaso e repetição em psicanálise: uma introdução à teoria das pulsões. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986.
[10] Alguns poderiam supor que o seio materno é o outro e que, portanto, o prazer derivado desse “chuchar” advém do outro como objeto de desejo. Todavia, considere-se que nesse estágio a criança ainda não reconhece plenamente a separação entre ela e a mãe, estando, portanto, num estado simbiótico com esta. Desta forma, não se trata do uso do seio como objeto externo ao corpo da criança, mas dos lábios como zona erógena mediadora da satisfação pulsional. Além disso, a função de autoconservação alia-se à função sexual na medida em que a satisfação pulsional ancora-se no “pretexto” da alimentação (CLANCIER, Pierre Sylvestre. Freud: conceitos e momentos fundamentais da teoria freudiana e da psicanálise. São Paulo: Melhoramentos, 1977).
[11] Karl Abraham subdividiu o estádio oral em duas fases distintas: uma fase precoce de sucção pré-ambivalente e uma fase posterior de mordida ambivalente. Essa fase posterior foi descrita por Abraham como fase sádico-oral ou canibalesca (cf. Clancier, 1977, p. 55).
[12] Antes da formação do ego, a criança funciona totalmente no processo primário, regido pelo princípio do prazer (FREUD, S. [1920]. Além do princípio do prazer. Edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996).
[13] Freud parece ter sido um exemplo incontestável da própria previsão. Fumante inveterado, adquiriu um câncer na boca, provavelmente em decorrência do abuso de charutos, já que fumava uma média de 20 charutos por dia.
[14] Como sabemos, não existe um objeto adequado à pulsão. O destino da pulsão é a satisfação, o objeto será aquele no qual a pulsão, com seu quantum energético, poderá se unir para garantir o seu objetivo.