A verdade é uma palavra inútil

Segundo o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa que levo sempre comigo e leio de maneira efusiva, quase que neuroticamente, a palavra verdade refere-se à conformidade com o real, expressa coisa verdadeira, exprime um princípio certo que estabelece ou respeita aquilo que é ditado pela lógica ou pela moral. Para os fundamentalistas religiosos, trata-se de um conceito basilar do dogmatismo, coluna de sustentação da profissão de fé. Para os céticos, uma palavra indecifrável, porquanto seu significado mais profundo não possa ser conhecido. Para a Filosofia, um objeto de estudo, vinculado à conduta humana enquanto princípio que chamamos de ética, tênue linha que busca traçar um mapa das formas de agir humanas. Para os matemáticos, a representação perfeita da combinação dos números e fórmulas, produto de cálculos pensados e repensados, cujo valor se encontra muito além da perspectiva da eternidade, sendo universal e imutável.

Enfim, a palavra verdade costuma ser muito utilizada por uma parcela considerável da humanidade com o objetivo de expressar aquilo que se acredita pertencer ao campo da realidade, ou simplesmente, para elucidar um mistério inconcluso e guardado debaixo das sete chaves da consciência individual ou coletiva. Curioso, confuso e até intrigado, recorro à Antologia Ilustrada de Filosofia, de Ubaldo Nicola, e percebo que a verdade (semântica, sintática ou conceitualmente) não é um interesse apenas meu, tampouco é um interesse natural da pós-modernidade, pois os filósofos já debatiam acerca do seu significado muito tempo antes.

Todavia, não é escopo deste colunista apreender a totalidade dos significados da palavra verdade enquanto uma representação da realidade, concreta ou abstrata. Para nós, pobres especuladores dos mistérios da existência humana, importa pensarmos a verdade enquanto fundamento lógico (ou ilógico, que seja) da maneira como encaramos a vida.

Nesta perspectiva, falaremos acerca da verdade de cada um; aquela verdade que brota inconscientemente da nossa experiência de vida no mundo, na civilização e na realidade (concreta, psíquica e imaginária) que nos surpreende. Para tanto, torna-se necessário que esclareçamos o que a verdade representa para a psicanálise (sempre ela!). Pois bem, intrépidos leitores! Para a psicanálise a verdade é apenas uma palavra inútil. A verdade é inútil não porque a psicanálise não acredite na sua existência, pelo contrário. A palavra verdade é inútil porque, sendo reflexo da atitude de cada indivíduo para com a vida, não pode ser repetida, apenas vivenciada. Numa análise não se trata do que aconteceu, mas das versões que criamos para o que aconteceu (a verdade mentirosa da vida). Por isso não há uma verdade fundamental num divã de psicanalista. A verdade do psicanalista não representa a verdade do analisando, nem poderia, uma vez que ambos vivenciaram experiências diferentes no decorrer de suas vidas.

Para não ficar de mentiroso, evoco o grande psicanalista francês Jacques Lacan: “é de suturas e emendas que se trata na análise”. Duvida? Procure um psicanalista.