Autismo: um enigma para a ciência

O diagnóstico de autismo* na contemporaneidade não mais representa grande motivo de estranhamento, uma vez que tem se tornado cada vez mais comum. Definido como um “mundo distante, estranho e cheio de enigmas”, o autismo continua ocupando o lugar de enigma, desde sua conceituação nosológica no tocante às causas, explicações acerca da manifestação semiológica dos “sinais” apresentados por indivíduos autistas que denunciam o “desvio” da normalidade, até a escolha de metodologias terapêuticas para o transtorno. Se por um lado o fato de não compreendermos a verdadeira natureza do transtorno do espectro autista, mesmo após incontáveis pesquisas nos últimos sessenta anos, não significa que o transtorno não produza sofrimento (seja no indivíduo seja nos pais e familiares), por outro lado, não podemos simplesmente declarar as abordagens terapêuticas utilizadas até o presente momento como ineficientes. Desta forma, embora o escopo deste artigo não seja o de esgotar a temática na sua inteireza epistemológica, o presente texto objetiva suscitar discussões acerca do lugar do autista no convívio social, bem como ponderar acerca dos sucessos e fracassos da psicanálise frente à constituição do transtorno de espectro autista. Assim, faz-se necessário explicitar primeiramente o contexto histórico acerca do surgimento desse diagnóstico.

A descoberta do Autismo

Em 1943, o psiquiatra Leo Kanner, publicou um artigo na revista Nervous Children, intitulado “Os transtornos autistas do contato afetivo” (Autistic disturbances of affective contact, em Inglês), no qual descrevia detalhadamente o caso de onze crianças cuja caracterologia reincidente demonstrava um desvio do comportamento considerado normal. Kanner apontou alguns aspectos que, devido sua relevância e precisão, continuam sendo empregados ainda hoje para designar esse transtorno.

Os aspectos básicos apontados por Kanner como características do autismo referem-se ao campo das relações sociais, comunicação e desenvolvimento da linguagem e “insistência em não variar o ambiente”, demonstrando a dificuldade no estabelecimento de contato afetivo, bem como da linguagem nas relações sociais e o apego à rotina cotidiana.

O autismo continua sendo um enigma para a sociedade científica, embora muitas pesquisas tenham sido conduzidas nos mais variados campos, como a psicologia da educação, psicanálise, neurologia, psiquiatria e genética. Todavia, o enigma persiste num discurso amorfo e indefinido, uma vez que os resultados não se mostram suficientemente conclusivos. Mesmo após seis décadas de estudos e pesquisas, o autismo persiste escamoteando sua origem e considerável parte de aspectos referentes à sua natureza nosológica, o que dificulta sobremaneira as intervenções educativas e terapêuticas.

A palavra “autismo” foi utilizada pela primeira vez por Bleuler, em 1911, para designar a perda de contato com a realidade, acarretando desta maneira uma considerável dificuldade na comunicação. Contudo, Bleuler não se referia ao autismo nos mesmos termos que Kanner, posto que somente em 1943, com a publicação do artigo já mencionado, que surgiram os primeiros diagnósticos de autismo, com a definição das características peculiares do autismo.

Nas últimas seis décadas, muitos esforços têm sido empreendidos no sentido de produzir um diagnóstico e uma terapêutica adequada a autismo. Em 1944, Hans Asperger descreveu casos em que algumas das características do autismo eram encontradas, confundindo-se com as características apresentadas por Kanner pouco tempo antes. Isso possibilitou que outros estudiosos apresentassem casos cujas características demonstrassem alguma similitude. No início da década de 1980, o trabalho de Asperger recebeu demasiada atenção, impulsionando assim o que passou a ser denominado de espectro do autismo. No ano de 1981, Lorna Wing formulou uma expressão mais abrangente para o quadro de autismo infantil – espectro autístico – sugerindo uma variação gradual da patologia que inclui tanto a descrição original de Kanner como a descrição formulada por Asperger.

O que dizem os Manuais Diagnósticos e Estatísticos (DSM-5 e CID-10)?

A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10) classifica o autismo na categoria dos Transtornos Globais do Desenvolvimento, onde encontram-se também a Síndrome de Asperger e a Síndrome de Rett, justificando uma diferenciação diagnóstica quanto a intensidade semiológica da manifestação das características apresentadas, conforme descrição formulada por Wing, em 1981. O Manual Diagnóstico e Estatístico das Desordens Mentais (DSM), na sua quarta edição, trazia uma fraseologia semelhante, reforçando a credibilidade da Classificação Internacional de Doenças.

Não obstante, com a atualização do Manual Diagnóstico e Estatístico das Desordens Mentais (DSM), que acabou ganhando uma quinta edição no ano de 2013, a nomenclatura foi radicalmente alterada, bem como o entendimento acerca da classificação anterior. Essa atualização modificou a designação dos Transtornos Globais do Desenvolvimento, guarda-chuva sob o qual o autismo e demais transtornos – como a Síndrome de Asperger e a Síndrome de Rett – estavam abrigados, criando a classificação de “Transtornos do Espectro Autista” que resultou de uma espécie de “fusão” dos transtornos vinculados na versão anterior do manual (importa esclarecer que a CID-10 em breve ganhará uma revisão, provavelmente encaminhando a mesma alteração do DSM-5). Por que a mudança? “Porque os sintomas desses transtornos representam um continuum único de prejuízos com intensidades que vão de leve a grave nos domínios de comunicação social e de comportamentos restritivos e repetitivos em vez de constituir transtornos distintos.”

A nova versão do DSM, porém, não elimina o enigma existente na figura do autista, tampouco explica as idiossincrasias existentes no transtorno do espectro autista. Mas lança luz sobre a reflexão que objetivamos empreender neste artigo, não somente com base no dispositivo inaugurado pelo Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais enquanto estatística semiológica, mas também com base no saber psicanalítico acerca do autismo.

A Psicanálise no Universo Autista

Especialmente nas últimas duas décadas, o autismo “não cessou de afirmar sua presença” (diz Éric Laurent, no seu livro sobre o autismo – clique aqui para adquirir: https://amzn.to/2Myumsk) no âmbito médico-científico, desvinculando-se completamente da classificação nosográfica das denominadas psicoses infantis. Isso porque no princípio dos estudos acerca do autismo, este encontrava-se, segundo muitos pesquisadores, fortemente vinculado à esquizofrenia infantil. Todavia, ambos os conceitos foram devidamente separados por volta do ano de 1979, período no qual fortaleceu-se a noção de “deficiência mental” em detrimento da noção de “doença mental”.

Embora haja um crescente interesse da psicanálise pela investigação acerca das etiologias escamoteadas na classificação dos chamados Transtornos do Espectro Autista, durante tempo considerável a psicanálise foi até mesmo combatida veementemente por associações de pais de crianças autistas em várias partes do mundo em decorrência da concepção defendida pelo psicanalista Bruno Bettelheim acerca das causas do autismo. Bettelheim estava convencido de que o autismo não tinha nenhuma base orgânica, senão que era originado por mães frias e pais ausentes. Defendia que a causa do autismo estava no fato de as “mães geladeiras” não estabelecerem vínculos afetivos necessários para o desenvolvimento psíquico dos filhos. Segundo ele, esse distanciamento das mães acabava por lançar os filhos no isolamento afetivo e emocional.

Durante mais de duas décadas as teorias de Bettelheim lograram aceitação no campo da ciência, arrastando um sem-número de psicanalistas freudianos para as trincheiras da hipótese não-orgânica formulada pelo psicólogo. Não obstante, sua teoria tornou-se bastante fragilizada à medida que novas pesquisas foram empreendidas no campo do autismo. Bruno Bettelheim suicidou-se em 1990, sem empregar novas pesquisas no campo do autismo.

“Fazemos parte de uma geração de psicanalistas que já se livrou há um bom tempo da absurda hipótese de que o autismo seria culpa dos pais e, especialmente das mães”, afirma Eric Laurent. O livro “A Batalha do Autismo” foi escrito pelo eminente psicanalista francês como uma espécie de manifesto dos psicanalistas acerca do autismo, posto que, na França, uma verdadeira batalha tem sido travada a respeito de que profissionais podem prestar atendimento terapêutico às crianças com transtorno do espectro autista. Nessa batalha a psicanálise tem sofrido severas derrotas, tanto no sentido da propaganda negativa que muitas instituições fazem contra a prática clínica psicanalítica com autistas, quanto entraves jurídicos envolvendo a psicanálise enquanto método terapêutico válido para os autistas.

Por outro lado, no Brasil e no mundo, muitos relatos clínicos têm demonstrado êxitos alcançados por psicanalistas no atendimento a crianças autistas. A psicanalista Anna Lúcia Leão López publicou um artigo no qual afirma que a “utilização da linguagem sonoro-musical como recurso pode ser favorável para possibilitar o comparecimento do sujeito”. A autora relata, com entusiasmo, a possibilidade de estabelecer comunicação com uma criança autista mediante a música tocada no violão, na qual o nome da criança seja expresso. Segundo ela, ao longo dos atendimentos a criança autista cantarolava a música e solicitava que as sessões fossem iniciadas e finalizadas com a canção.

Quando Éric Laurent escreve o livro “A Batalha do Autismo”, sua intenção é posicionar a psicanálise no lugar de método terapêutico legítimo para o tratamento e acompanhamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista, embora não como única abordagem terapêutica. É sabido que para uma abordagem integral do ser humano, principalmente no tocante a pessoas com autismo, faz-se necessário um intercâmbio de saberes que vão desde fonoaudiologia à psicomotricidade, desde a pediatria à neurologia, desde a pedagogia à terapia ocupacional, desde a psicologia à psiquiatria, proporcionando uma visão multidisciplinar a fim de se ofertar as melhores condições de acompanhamento terapêutico e educacional. Portanto, o psicanalista francês, conhecedor da condição de multidisciplinaridade exigida pelo autismo, inclusive em decorrência do pluralismo de fatores que podem estar associados à etiologia do transtorno, no que se refere a tratamento e acompanhamento terapêutico, não poderia instrumentalizar a psicanálise enquanto única abordagem válida, eficiente e confiável.

Pelo contrário, o que se busca com a publicação é desmontar a tese, fortemente arraigada, de que a psicanálise defende que a etiologia do autismo tenha alguma relação com a teoria das “mães geladeiras”, formulada por Bettelheim. Deste ângulo, o livro representa, antes, um manifesto dos psicanalistas do mundo inteiro contra a posição (política) autoritária que exclui a psicanálise do corpo multidisciplinar cujos saberes podem (enfatize-se: podem!) auxiliar no tratamento de pessoas com autismo.

Nesta perspectiva, considerando a pluralidade e complexidade das manifestações do Transtorno do Espectro Autista, bem como a posição autística apresentada podendo dividir-se em primária ou secundária, far-se-á bem utilizarmos o termo pluralizado “autismos”. Todavia, urge salientar que o modelo de diagnóstico dos “autismos”, essencialmente clínico, exclui definitivamente o sujeito, tendo como base teórica não mais do que a percepção de características fenomenológicas, marcadas majoritariamente pela ausência: “não falam; não demandam; parecem não possuir imagem especular, uma vez que não se reconhecem diante do espelho”, ressalta Flávia Chiapetta de Azevedo, no livro sobre “Autismo e Psicanálise”, no qual teoriza a respeito da expressão “sujeito inconstituído”.

O Lugar do Psicanalista

Importa-nos neste momento pensar o lugar do psicanalista numa relação transferencial com o indivíduo autista. Certamente que cada analista constrói seu estilo segundo a técnica desejada, porém as técnicas devem convergir para o sucesso da intervenção terapêutica. Anna Lúcia Leão López relatou avanços na intervenção musical na direção do tratamento. Lembrando que em relação ao autismo, Lacan afirma que “são simplesmente pessoas para as quais o peso das palavras é muito sério e que não estão facilmente dispostas a estar à vontade com essas palavras”.

Portanto, o lugar do psicanalista é o lugar do Outro. Trata-se de uma posição de convite à relação, à transferência, auxiliando o indivíduo a articular um discurso (ainda que fragmentado) e simbolizar essa relação [sobre tratamento psicanalítico de crianças autistas, este livro poderá ajudar: https://amzn.to/2XCiECY]. Constituir-se sujeito mediante os significantes essenciais pode demonstrar o quanto as palavras pesam para as pessoas com autismo, mas a despeito disso, possibilita o estabelecimento da comunicação, o surgimento do sujeito e a ressignificação da vida.

* Texto publicado originalmente na Coluna Glossário de Psicanálise, do Jornal Alerta.